21 julho 2011

O que é "ser racional" ?



Ontem um colega de trabalho falou, sobre uma empresa rival: "Está faltando esse pessoal ser mais racional".


Não resisti... Um pouquinho de análise semântico-pragmática, logo cedo pela manhã pode ser um delícia: "Como assim? O que é ser racional?"


Depois de alguns minutos, elencamos uma vasta série de significados para "racionalidade":


- é ser sensato


- objetivo


- coerente


- prudente


- fazer as coisas direito, certo


Na Filosofia de Platão, que mais tarde moldou o Ocidente
Cristão, a Razão é a virtude e potência insuperável


Depois dessa breve análise do sentido de racional, me lembrei da Teoria dos Jogos, que trata basicamente de projetar decisões racionais, levando em conta a interdependência estratégica dos decisores.


Em tempo: a Teoria dos Jogos não assume que as pessoas são racionais e ponto. Ela diz que as pessoas podem agir de forma racional (E é aí que o planejamento estratégico da Teoria dos Jogos entra).

Ok, "decisões racionais". Mas o que é racional



É o oposto de emocional e animalesco, como os filósofos modernos, notoriamente Descartes, parecem dizer? (E o Sr. Spock parece concordar).





Uma "Árvore de Decisões": diagrama muito usado na Teoria dos Jogos.
Mas será que dá para diagramar todas as decisões da vida?


A racionalidade, na Teoria dos Jogos, é entendida como uma correspondência entre meios e fins.


Uma pessoa está agindo de forma racional quando o que ela está fazendo no presente é congruente com o que ela quer que aconteça no futuro.


Ou seja, a base da racionalidade é ter objetivos, planos, e se comportar de tal forma que as consequências de suas ações ajudem a realizá-los.


Note que essa definição , que gosto muito, não exclui os comportamentos dito emocionais. Posso estar sendo muito racional se amar profundamente alguém, viver uma relação sentimental profunda com uma pessoa que desejo ter comigo.


O amor não é necessariamente concorrente da racionalidade, como os filósofos modernos nos fizeram crer.


Se bem que às vezes ele pode parecer e ser meio irracional:




Ser racional é tão somente levar em conta as consequências dos seus atos.

E, nesse sentido, a racionalidade se funde perfeitamente com sua irmã, a Ética.


Afinal, ser ético e amar, assim como ser racional, pressupõe viver levando em conta os outros e o futuro.


25 comentários:

Marius disse...

Assim como Fé, que nos fazem crer que seja algo irracional, está (ou deveria estar) intrinsicamente relacionada a Razão.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

A Fé (imagino q vc está se referindo a religiosa, em especifico) é baseada em dogmas.

Dogmas são crenças inquestionáveis: não podem ser tocadas nem pela Razão.

Marius disse...

tem razao. O que torna ainda mais questionável a propria fé, porém esta não se sustenta sem o uso da razão. Aí, ao meu ver, a falha ou limitação da doutrina, ou da interpretação que alguns fazem dela. "misterios da fé". Ainda existe um grande hiato entre aquilo que conhecemos e podemos provar racionalmente, até aquilo que realmente é... e é justamente a busca por essa "verdade" que deveria ser o "caminho da fé" religiosa ou qualquer. infelizmente não é o que acontece. os Fiéis preferem permanecer numa fé cega, na qual qualquer meia verdade acaba virando lei. lamentavel.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

a busca pela Verdade pressupõe que existe uma Verdade Última, e isso é um dogma... Racionalmente, não existe tal coisa...

Marius disse...

continua sendo uma questão de definições e conceitos. verdade ultima? absoluta? a busca por ela não pressupõe que ela exista... ela pode muito bem ser mutável, evoluir, assim como evolui o conhecimento humano, que tende sempre a ser limitado. se não fosse, não teria mais o que evoluir... dogmas e verdades absolutas são coisas finitas/limitadas por definição. se considerarmos o foco religioso (que na verdade é o foco que abordei) Deus é algo infiníto por definição, por isso não se aplica a definições limitadas.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

seria interessante vc ler algo sobre o Neo-Pragmatismo de Rorty, Marius

Acho q ele expõe muito bem essa coisa da "Verdade" como uma construção mutável.

Confira:

http://olharbeheca.blogspot.com/2010/12/richard-rorty-e-filosofia-analitica.html

Se não existe uma "Verdade Única e Definitiva", não faz muito sentido dizer que existe, p.e., uma "religião verdadeira", ou que alguém pode ter alcançado "A Verdade", ou algum lider religioso dizer "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida".

Marius disse...

vlw a dica...
Quanto a isso não fazer sentido, creio que muita coisa pode não fazer sentido... mas nem por isso deixa de ser válida ou de existir... pelo menos até que alguém a prove verdadeira ou não, de forma definitiva... e com relação a Deus ou Jesus, ninguém ainda o fez de forma convincente.
Quanto a religião cristã e a citação que fez, me faz todo o sentido, desde o momento em que tomo isso como verdadeiro pra mim, e procuro seguir por esse caminho, e percebo que ele (caminho) me ajuda a crescer, a buscar algo mais, a querer mais e não ficar estagnado no tempo/espaço. Infelizmente (assim como alguns filósofos colocam) muitos enxergam a doutrina Judaico/Cristã como a doutrina dos "fracos e oprimidos" pois deles é o reino dos céus, o que é apenas um ponto de vista equivocado ao meu ver. A doutrina cristã é exatamente o contrário disso... busca pela santidade... isso está longe de ser a busca por ser martir, por ser sofredor... mas muitos só compreendem dessa forma.
Em suma, esse é o caminho pelo qual me guio, e creio que tenha o seu próprio. Agradeço pela discussão, e pelo blog em geral, pois por mais que as idéias as vezes sejam divergentes, procuro ver sempre que é o diferente que nos acrescenta.
Abraço

Marius disse...

PS: essa historia de "alcançar a verdade" ou a plenitude... algo como o nirvana... pra mim também é balela.
A Fé Cristã se baseia em dois pontos ou "leis", e só deveriam focar nesses dois pontos (que seriam como dogmas absolutos):
1) Deus: como principio e fim (não que seja finito, ao contrário, é infinito... absoluto? isso infere que tenha fim? não vejo assim... entendo que vá além.)
2) Amor: a "lei" que suplanta todas as outras, e a única que deveria existir (colocada também como sinônimo de... Deus).

As outras "leis" ou regras religiosas só foram aparecendo e se multiplicando (historia da igreja é algo bem rico) devido a dificuldade dos homens, em geral muito simples e muitas vezes pouco pensantes, em entender o conceito de "amor" de formas muito limitadas, em geral restringindo o significado apenas à paixão ou a um sentimento. E Amor, assim como Deus, são conceitos que vão muito além do que limita a compreensão da maioria de nós, seres muitas vezes irracionais.
Ser racional é fundamental.

Marius disse...

(pós leitura)
diria que é engrandecedor o pensamento de Rorty, e concordo. E todos os tópicos da tabela "verdade como invenção" corroboram ainda mais com a minha fé, e com o que eu disse anteriormente. O Evangelho é isso, e por isso mesmo se mantém firme como base da uma fé com mais de 2000 anos de historia.
Todas as outras "limitações" ou regras são elementos "inventados" pelos homens da igreja para "abarcar" os que não conheciam a Jesus.
Mas pode-se então ter uma vida "digna*" (*já li posts a respeito aqui e concordo) sem o conhecimento de Jesus e a "conversão"? Claro que sim! Mas se deixo assim... liberdade para ser e fazer o que quiser, sem ter algo a seguir ou buscar, onde muitos podem parar? Libertinagem, que não tem nada a ver com liberdade, assim como já foi bem exposto por aqui.
Infelizmente falta muito senso crítico às pessoas... nem por isso devemos julga-las, mas dar condições para que se "libertem"... aí entram conhecimento, entra razão...
Jesus veio justamente mostrar uma nova possibilidade, além das leis judaicas ou pagãs... nunca julgou, mas foi julgado... assim como muitos julgam a Igreja, sem ao menos conhecer e entender. É triste.
Muito mais construtivo seria se agregássemos, ao invés de separar, atacar...
Reforços positivos sugerem soma, mas em geral é mais fácil às pessoas usarem do reforço negativo ou da coerção.

Marius disse...

Ah... só uma coisa.
Interessante ver como esse debate surgir de uma compreensão que temos em comum: "O amor não é necessariamente concorrente da racionalidade, como os filósofos modernos nos fizeram crer."
É isso aí.
Abraço... e fica com Deus!
haha

Alessandro Vieira dos Reis disse...

achei interessante vc dizer que as coisas da religião não precisam fazer sentido, e que estão além da Razão...

Marius disse...

contraditório? haha
Na verdade o que disse é que vão além da nossa compreensão, o que no fim pode dar no mesmo, e no fim das contas, a tal busca pela "verdade" é o que chamaria de busca pela compreensão. A finalidade deveria ser o "entendimento" e não o contrário.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

se vai além da compreensão, é incompatível com o exercicio da Razão

logo, a Fé demanda abdicar da Razão

Marius disse...

Entendo seu ponto de vista, e até concordo. Concordo também que muitas vezes atos de fé podem ir contra a razão, assim como sentimentos podem divergir da razão (não estou colocando fé como sentimento). A "fidelidade" em sí (origem latina da palavra fé) pode ser considerada também como algo muitas vezes irracional, mas se nos leva a permanecer junto do obejto da nossa fé, é pela sua definição de razão, um ato racional.
E quanto mais motivos ou razões (estou sendo polissemico novamente) se há para ter fé, mais forte a fé. Portanto, a fé ou fidelidade a qual me refiro, seja por uma ideologia, uma religião ou uma pessoa, demanda sim da razão.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

demanda razão, mas não precisa fazer sentido e nem pode ser questionado

me parece que há uma falha em Lógica nesse raciocínio

Marius disse...

"demanda razão", creio que seja ponto vencido. seguindo então...

"Não precisa fazer sentido" não foi o que eu disse novamente... disse que "não faz" mas é esse "sentido" que se está buscando. Fé como busca da razão, da verdade (mesmo sendo no conceito de Rorty)... busca de um objetivo definido. Sendo assim, pela teoria dos Jogos, como foi proposto, a fé é uma forma racional de chegar ao objetivo (talvez inalcançável visto que o objetivo ou fim não seja algo absoluto ao seu ver, que em se tratando de Deus, pra mim o é, mas não é o ponto fundamental aqui).

E "não pode ser questionado" também é outra conclusão um tanto equivocada. Sei que o conceito do "livre-arbítrio" não é muito aceito pela sua fundamentação, porém ele é claro e fundamenta a fé cristã. Parece ser mais uma vez contraditório, ou ser ilógico colocar lado a lado "Dogmas" e "Livre-arbítrio", mas eles coexistem na doutrina, e nisso se baseia (não só nisso) a fé cristã, e não apenas em dogmas.
Nesse sentido, a Fé tem intima relação com a "esperança" de vencer a barreira do desconhecido e chegar a um objetivo final, chamado de "Reino dos céus" que pode ser colocado como uma invenção e pode ser relativo, mas é a denominação que conceitua o que os cristãos buscam alcançar (ou pelo menos deveriam).

Alessandro Vieira dos Reis disse...

Para ser racional, a fé deve permitir questionar os dogmas

Dentre eles, o do livre-arbítrio

Cientificamente, é muito questionável que o livre-arbítrio exista. Mas ele é um dogma cristão.

O cristão deve questionar se tem de fato livre-arbítrio. Nesse ato, ele questiona um dogma de sua Fé, e sua Fé ordena que ele páre imediatamente, pois há verdades que não podem (não devem) ser analisadas de forma racional.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

uma pessoa religiosa pode ser racional sim

Isso pq a Fé impede apenas que ela faça ALGUMAS reflexões a fundo: "Deus Existe mesmo?" é uma delas

A Fé irá paralizar a razão, qdo o assunto forem os dogmas religiosos. Porém a pessoa religiosa continuará sendo racional qdo os assuntos forem outros, como profissão, matemática, o preço do tomate na feira, etc.

Nesse sentido, é correto dizer que Fé e Razão podem ser compatíveis.

O que não pode ser compatível é Fé e liberdade de pensamento.

Marius disse...

Bem... tenho que dizer de outro equívoco, pois o conceito de "livre-arbítrio" ao qual podemos simplificar chamando de "liberdade" não é um DOGMA, pelo menos não na doutrina católica. O livre-arbítrio é sim aos católicos (aos quais me incluo) uma prova do amor de Deus por nós, o qual nos dá Liberdade de fazer nossas próprias escolhas. Ao contrário, boa parte das doutrinas protestantes, que são realmente deterministas (o calvinismo por exemplo) inclusive rejeitam esse conceito, visto que aceitam a "predestinação" (o que particularmente não gosto muito).
Portanto, ainda defendo que exista a Fé paralela a Liberdade de pensamento, e não apenas para as coisas cotidianas como você bem expôs.
Creio que as crenças devam sim ser questionadas e foi graças a esses questionamentos que grandes pensadores da igreja fizeram com que ela evoluísse, e não só a igreja, mas a filosofia, a teologia em geral. Santo Agostinho, São Tomás de Aquino são dois grandes exemplos. Falhas podem até existir... alguns pontos sem explicação, mas é justamente a busca pela razão que fortalece a Fé (tá... acho que estou sendo repetitivo).

Agora... questionar o livre arbítrio é uma coisa. Sou ou posso ser livre pra decidir o que quero, depende em muito da minha decisão e daquilo que avalio positivo ou não dentro das minhas relações no contexto em que vivo.
Outra coisa, é questionar a existência de Deus. Posso fazer isso? Posso... assim como posso questionar a existência de muitas coisas, mas aí teríamos um outro debate (não menos interessante) como por exemplo: o Amor existe? (só pra não sair do contexto).
Caímos de novo no ponto em que tudo é uma questão de definições e conceitos. No caso da Fé Cristã e católica, a minha Fé, poderia dizer que o "conceito" de "Deus", como construção linguística, é a realidade particular a nós Cristãos Católicos. Essa realidade e a denominação podem ser diferentes em outra comunidade, mas ainda assim, cada uma tem a sua (segundo Rorty) e devem ser livres para ter (o que é perfeitamente aceitável)... mas ao meu ver, essa realidade é uma só... apenas com denominações e compreensões em níveis diferentes, dependentes do histórico e ambiente de cada um.

Alessandro Vieira dos Reis disse...

Marius,

o livre-arbítrio é sim um dogma para o catolicismo, pois trata-se de um artigo de Fé, um conceito que se pressupõe e aceita por "divina revelação" ("Deus disse, então é assim").

Francisco disse...

Mas se você tem fé, levando em conta a consequência desse fato (poder estar errado), você não estaria sendo racional?

A fé em si não é racional - já que ela não segue a lógica - mas ela pode ser usada de forma racional, não?

Eduardo Coral disse...

Se eu disser que acredito que os extraterrenos invadirão a Terra este ano, que tenho certeza disso, estaria pondo fé em algo que não é bom? Me parece que a fé também pode ser usada ao contrário, para o mal, e não sei se ela se torna então o que podemos chamar de praga.

Eduardo Coral disse...

Aí talvez não seja Fé, mas arriscar,como jogar na loto etc. Se a pessoa tem Fé, ela não está errada, ela não erra, ela tem Fé. Simplesmente. A Fé tem essa vertente religiosa, e São Tomé, por exemplo, "não parecia possui-la"; mesmo assim acabou virando santo. É preciso que se tenha Fé!

Eduardo Coral disse...

Mas, complementando, de nada vale ter fé sem ter amor...

Witaro disse...

Sobre "racionalidade" e teoria dos jogos e sua influência em nossa cultura, recomendo o documentário abaixo (É possível ativar legenda pt-br):

http://www.youtube.com/watch?v=h1ttbkcB-_4

Abraço!